terça-feira, 11 de março de 2014

...


pontas
apontam
o porto
e os
prósperos
pontos
prontos

eu
que nunca fui
pontiaguda
que nunca fui
livre
que nunca fui
presa
que nunca fui

perguntas
feitas
refeitas
desfeitas
num clichê
desfeito
refeito
feito
em mim

mas
de que vale
a certeza
do caminho
diante do mistério
do fim?

C.S.S., aprendendo a lidar com reticências

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

09/12/2013


Nove de dezembro de 2013.
Um dia para seu aniversário.
Um dia para seus irmãos chegarem.
Um dia para começar a festa.
Um dia.

Nove de dezembro de 2013,
você caíra e não conseguia se levantar.

Nove de dezembro de 2013,
e não foi preciso mais de um dia para tudo mudar.

Não vou lamentar a saudade.
Não vou lamentar a perda da minha melhor aluna de inglês.
Não vou lamentar o vídeo em sua homenagem que você nunca assistiu.

Eu não vou lamentar.

Prefiro lembrar que você gostava de dançar.
E lembrar da sua dança é também lembrar dele.
É lembrar o quanto era bonito.

Eu vou sempre lembrar.

Hoje, com saudade duplicada aos 84 e um mês,
danço com vocês
no ritmo despojado
de rimas inexperientes
e sonho um segredo revelado:
esperaste a lua cheia
para reencontrar o seu amado.

Adeus, vó.
Cuida bem dela, vô.

C.S.S. 

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Das várias formas de morrer – a primeira lição


“... e então o homem sentiu necessidade de registrar aquilo que falava e surgiu a escrita”.

A explicação da professora penetrava em seus ouvidos como o relato de um crime. Afinal, desde criança obrigavam-na a respeitar um conjunto de desenhos negros sobre o papel branco e pautado, que rogavam chamar de alfabeto.

O que seriam as palavras escritas, se não armadilhas para o som que reinava pleno e livre na variação fascinante do boca a boca?

Mas, tal qual a vítima que se apaixona por seu algoz, gostava de escrever.

Já na adolescência, após um tsunami abruptamente lhe penetrar todos os poros da pele e inundar seu coração de felicidade, cogitou estar apaixonada. “eu você água”, escreveu – no mais sincero bilhete de sua vida – após vasculhar, inutilmente, décadas de palavras acumuladas em rígido sistema gramatical.

Sem sucesso na declaração, e sofrendo a angústia dos incompreendidos, percebeu a absoluta inutilidade – em sua vida – dos desenhos autoritários.

Queria falar sentimentos e escrever com o coração! Embora não tenha conseguido ir além deste post, com palavras escritas.

C.S.S., em crise mais uma vez

sábado, 27 de julho de 2013

xywatef


- E então, consegue ler?
- Sim, mas está embaçado...
- E agora, melhorou?
- x y w a t e f... 
- Certo. Seu grau aumentou um pouco, nada significativo. Já pode fazer a cirurgia, se quiser.
- Por que x y w a t e f?
- Como?
- Por que essas letras? Quem as escolheu?
- Não sei.
- Há quanto tempo o Sr. é médico?
- 28 anos.
- E nunca parou pra pensar nessas letras, no porquê de cada uma?
- São apenas letras. O importante é identificá-las corretamente.
- Não seria ainda mais importante se elas fizessem algum sentido?
- Elas fazem! Através delas podemos verificar a acuidade visual dos pacientes.
- Isso não é sentido, é objetivo.
- A ciência trabalha com objetivos.
- Sinto muito.
- Pelo quê?
- Essas letras não têm sentido, apenas objetivos.
- Ter objetivos não é bom?
- É, mas quando não fazem o menor sentido, não.
- Eu acho que fazem sentido.
- O Sr. poderia ajudar o amor. 
- Ajudar o amor? Como assim?
- Dizem que o amor é cego, eu o considero apenas míope. Uns óculos cairiam bem, mas com a devida cautela. O amor é cheio de sentidos e sem qualquer objetivo. E essas letrinhas só têm objetivos a oferecer. 
- Nasceram um para o outro então.
- Isso só uma consulta poderá dizer.
- Você é engraçada...
- Não, sou apenas uma míope tentando lidar com alguns objetivos e vários sentidos.
- Aqui está sua receita com o novo grau.
- Obrigada. Tenha um bom dia.

C.S.S., a cada dia mais míope

terça-feira, 9 de abril de 2013

salamê minguê


Se são tantos os quereres
E tão poucos os porquês
Por que tantos saberes
Se não sei dizer pra quê? 

C.S.S., sem saber

uni duni tê


A cada escolha morre em mim a parte que escolheu não optar.
Sobrevivo em cima de cadáveres.  

C.S.S., suicidando-se mais uma vez

quinta-feira, 7 de março de 2013

1/4


1/4 de século,
300 meses,
9.125 dias,
219.000 horas
sendo eu (ou tentando ser algo bem distante disso)

Tô exausta.  

Tirando os momentos de choro infantil,
os dias dedicados aos amores platônicos e,
minha nossa,
as longas horas em vídeo games e televisões,
o que me resta? 

Não aprendi a esquecer.
Nunca resolvi ou superei qualquer coisa.

A lucidez é minha droga,
uso-a em dosagens desreguladas e irresponsáveis
que há anos tem condenado à abstração
precários e pretensos talentos,
apesar de frágeis alegrias.

Aos 25,
sem saber ou entender,   
resta-me a saudade do futuro
escondido no presente
que o passado sonhou. 

C.S.S., 25